Desde sempre, caminhamos

O jornalista especializado em aventuras e escritor Airton Ortiz relata uma viagem de 45 mil quilômetros e cerca de 7 milhões de anos! Seguindo pistas genéticas e arqueológicas, ele empreende o provável trajeto que nos trouxe, desde a África selvagem, berço de nossa existência como espécie, até aqui, no Brasil. Entre um ponto e outro da viagem, realizada quase integralmente em transporte público, caminhões sem condições de conforto e vans esquisitas, apresenta evidências e registros que ligam nossa polêmica espécie ao primeiros primatas.

"Na trilha da humanidade", de Airton Ortiz. Ed. Record.

Nada de grande é muito fácil. Passando por áreas de conflitos tribais, guerras civis e desvios involuntários (por vistos negados, condições de segurança e outros), nós seguimos na carona, no conforto de uma poltrona fofa, bem diferente do que nossos antepassados enfrentaram. Superamos obstáculos geográficos e climáticos, atravessamos desertos quentes, mares secos e camadas de gelo para chegar ao atual Alaska e, enfim, conquistarmos a América. Trouxemos algumas espécies animais e vegetais. Caçamos, coletamos, bebemos, nos separamos de nossa turma e continuamos em frente. Hoje, podemos nos reencontrar.

“Mama África”, Etiópia. Ali adquirimos consciência, criamos ferramentas e artefatos que nos permitiram superar nossas restrições naturais: fracos, frágeis, mas unidos. Sim, todos somos africanos e isso nos dá um alento enorme, pois é prova de que, naturalmente, sempre necessitamos de solidariedade. Sem ela, nada de Homo sapiens.

O texto tem altos e baixos. Algumas vezes, a redação é tão amadora que parece ter saído de um iniciante nas letras. Outras, encontramos excepcionais descrições de lugares, ambientes e situações. No todo, passa de ano. Os méritos principais são, enfim, a proposta e as informações.

Ao fim da leitura, dá uma vontade imensa (humanista que sou) de abraçar alguém, olhar para a pessoa e dizer – olhos úmidos – “meu irmão, enfim nos reencontramos”.

Abraços fraternais.


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Autoajuda para ciclistas

"Manual de sobrevivência do ciclista urbano", de Sérgio Magalhães. Ed. Ponteio, 2010.

Quase um panfleto, quase uma cartilha. Esse livrinho (que li em eBook) divulga uma filosofia, mas também traz informações úteis sobre como “cavalgar” a magrela com segurança e ética. Em algumas passagens, desconsidera deliberadamente o Código de Trânsito em prol da segurança do ciclista, mas justifica a escolha. Em minha opinião, acertadas.

Todas as páginas são ilustradas pelo próprio Sérgio Magalhães e as informações e dicas são baseadas em sua experiência como ciclista urbano em diversas cidades do mundo.

Simplesinho, despretensioso, e por isso vale a pena.

Abraços fraternais.


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Por um sorriso sincero

Capa de "Fotografe sua família"

"Fotografe sua família", de Joe Sartore e John Healey.

Se você é daqueles que ficam esperando um sorriso posado, uma pose para a câmera, que para ‘espontâneo’ há uma longa distância, este livro é para você! Nele, os autores, Joe Satore e John Healey, experientes fotógrafos da National Geographic, demonstram (com lindas fotos) que o mais importante é o contexto, o momento, a história que a foto conta.

Por isso, o choro é tão importante quanto o sorriso (muitas vezes posado). O olhar leve, apontado para um animalzinho fofinho, conta mais que o olho diretamente voltado para a câmera. Aquela cena hilária, quando todos os amiguinhos estão felizes e sujos, face ao jeitão emburrado de nosso pimpolho… afinal, a vida é feita de bons e maus momentos, não é?

Enfim, o olhar atento, sensível, do ‘fotógrafo da família’ é o que conta, pois a própria família já nos dá suficientes situações e cenas fantásticas para se registrar. A cena posada deveria ser uma exceção e não a regra nos registros de família. Vale mais ter a câmera sempre a postos, bateria carregada, espaço em disco, pronta para ‘aquela’ cena!

Recomendo a todos, pais e mães, com suas maquinas compactas, para que continuem nos brindando com o movimento da vida.

Abraços fraternais.


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O dia em que quase me senti Eike Batista

Foi nesta Bienal do Livro. Por pouco não entrei para o rol de colecionadores de livros raros. Mas esse causo merece uma introdução.

Splendor Solis

Uma das iluminuras de Splendor Solis

Passear pela Bienal com dois filhos pequenos é, definitivamente, uma aventura. São pouco momentos livres, quando você pode aproveitar seu tempo e passear pelos estandes. Consegui um desses momentos botando o Leo para dormir no carrinho (o bolinha é um docinho quando dorme). Andando com a calma necessária, passei pelo estande da Espanha e reparei em alguns livros lindíssimos, capas ricamente ornamentadas e tipografia gótica. Fui e voltei algumas vezes, tímido. Quando cheguei mais perto me deparei com a iluminura que estava visível. Tratava-se de uma ilustração adornada em dourado de uma conhecida “cena” sobre alquimia. Reconheci por ter em minha prateleiras o compêndio “Alquimia & Misticismo: o museu hermético” da Taschen. Não resisti.

A vendedora, espanhola, notou e veio me receber. Explicou-me que tratava-se do Splendor Solis, um tratado de alquimia alemão do século XVI. Uma cópia quase-original do manuscrito que se encontra na British Library, em Londres. Apenas 987 cópias foram autorizadas e ainda vinha com um caderno de estudo ricamente ilustrado, com a tradução do texto e comentários, além de um estojo maravilhoso. Folheei maravilhado, quase tremendo. Ao final, perguntei o preço – estava realmente disposto a levá-lo.

Pela bagatela de cerca de 5.700 dólares poderia levar o conjunto para casa. Preço com desconto. Poderia dividir em 12 vezes.

O susto durou alguns segundos, que pareceram uma eternidade. Meio que para afastar a tentação, pedi informação sobre outra obra que estava exposta: uma cartografia portuguesa do séc. XVI, com linhas douradas em pergaminho. Na verdade era um estojo de 42 x 59cm com 8 mapas. Era o Atlas Miller. Nem perguntei o preço.

Mudei de assunto, conversei outras coisas como o editor (o próprio M. Moleiro) e saí de fininho, aproveitando que o bolinha já me olhava com aqueles olhinhos lindos de pidão.

Acontece que passei umas outras 4 vezes pelo estande novamente, calculando mentalmente o quanto me custaria realmente aquilo. Tenho certeza que essa primeira vez não seria a única. Eu tomaria gosto pela coisa e boa parte de meu orçamento acabaria indo para essa jóias. Nesses poucos minutos me senti um um José Mindlin, um Borges com a conta bancária do Eike Batista.

Felizmente me dei conta de que eu continuava sendo eu, com a minha conta bancária, e o sonho se foi rapidamente. Mas foi um momento especial aquele, que queria registrar.

Abraços fraternais.


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Histórias tristes de crianças

Amigos, sempre me emocionei com essa declamação por Tom Waits, no álbum “Orphans: Brawlers, Brawlers & Bastards”, de 2006. Não é uma canção, trata-se de um texto de Georg Buchner, em “Woyzeck”. O clima, a voz rouca e íntima, muito próxima, como sussurrando no ouvido… como se estivéssemos todos sentados em um canto quentinho, ouvindo estórias, piadas e conversas densas. Aí alguém lembra de um conto triste, MUITO triste, sobre uma criancinha pobre e órfã…

O ponto é que ouvi-a hoje, mais uma vez. Não foi um bom momento, talvez. Sei é que as lágrimas brotaram tão rápido que levantei-me da cadeira e precisei de um tempo para me recompor e voltar ao trabalho.

Quero compartilhar com vocês, meus 8 leitores.

Primeiro, um video realizado com base na contação (não oficial), ilustrado por Matt Rosemier. Depois, a minha tradução livre. Por fim, o original. Abraços fraternais.

Vídeo: Children\’s Story, no YouTube

Estória de Crianças

Era uma vez uma criança pobre,
Sem pai e sem mãe,
E tudo estava morto,
E nada foi deixado no mundo inteirinho.
Tudo estava morto.
E a criança andou e procurou dia e noite,
E como não encontrou ninguém na terra,
Ele quis ir para o céu,
E a lua lhe pareceu agradável,
E quando ele finalmente alcançou a lua,
A lua era só um pedaço de madeira podre.
E então ele foi ao sol,
E quando ele chegou lá,
O sol era só um girassol murcho.
E quando chegou às estrelas,
Elas eram pequenos vagalumes, enfiados em espinhos ao longo de galhos negros.
E quando ele quis voltar a terra,
A terra era um penico invertido.
E ele estava sozinho.
E sentou e chorou.
E está lá até hoje.
Sozinho.

Children’s Story

Once upon a time, there was a poor child,
With no father and no mother,
And everything was dead,
And no one was left in the whole world.
Everything was dead.
And the child went and searched day and night,
And since nobody was left on the earth,
He wanted to go up in to the heavens,
And the moon was looking at him so friendly,
And when he finally got to the moon,
The moon was a piece of rotten wood.
And then he went to the sun,
And when he got there,
The sun was a wilted sunflower.
And when he got to the stars,
They were little golden flies, stuck up there like the shrike sticks among the black thorn.
And when he wanted to go back down to Earth,
The Earth was an overturned piss-pot, And he was all alone.
And he sat down and he cried.
And he is there to this day.
All alone.


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